A Maçonaria · Brasil

Maçonaria no Brasil: da Independência às potências contemporâneas

Uma leitura histórica, acessível e documentada sobre pessoas, Lojas e instituições que atravessaram momentos importantes da formação do país — sem transformar participação histórica em mito.

Introdução — como a Maçonaria chega ao Brasil

Vista histórica do porto do Rio de Janeiro em 1822
Vista histórica do Rio de Janeiro no período colonial — imagem histórica em domínio público.

A presença maçônica no Brasil aparece no final do período colonial, num ambiente de circulação de ideias iluministas, sociedades de sociabilidade e debates sobre autonomia política.

As fontes institucionais do Grande Oriente do Brasil (GOB) e do Grande Oriente Maçônico do Brasil (GOMB) costumam apontar a Loja Cavaleiros da Luz, em Salvador, em 1797, como uma das referências iniciais. A documentação sobre esses primeiros episódios é menos uniforme do que a do século XIX; por isso, nesta página, os acontecimentos iniciais são apresentados como marcos da historiografia maçônica institucional, e não como fatos isolados capazes de explicar sozinhos a história do país.

A partir de 1815, com a Loja Comércio e Artes, e principalmente em 1822, a documentação se torna muito mais clara: a Maçonaria passa a aparecer diretamente ligada a personagens e instituições que participavam do debate sobre a emancipação brasileira.

Primeiros registros, Lojas e organização

O próprio GOMB registra em sua história institucional a Loja Reunião, fundada em 1801 no Rio de Janeiro, como uma das primeiras Lojas regulares brasileiras. Já o GOB destaca a Loja Comércio e Artes, fundada em 1815, fechada durante a repressão às sociedades secretas e reerguida em 1821 como Comércio e Artes na Idade do Ouro.

Essas experiências mostram uma passagem importante: de grupos e Lojas ainda isolados para a necessidade de uma estrutura maçônica brasileira organizada. Em 1822, a própria Comércio e Artes foi desdobrada em três Lojas que formariam a primeira Obediência nacional.

1797Cavaleiros da Luz — referência institucional em Salvador
1801Loja Reunião — Rio de Janeiro
1815Comércio e Artes
1821Reerguimento da Comércio e Artes
1822Grande Oriente nacional
Largo do Paço no Rio de Janeiro, representação histórica de Jean-Baptiste Debret
Largo do Paço, Rio de Janeiro, c. 1834 — Jean-Baptiste Debret / domínio público.

17 de junho de 1822 — nasce o Grande Oriente do Brasil

Em 17 de junho de 1822, as Lojas Comércio e Artes na Idade do Ouro, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói reuniram-se para formar o então Grande Oriente Brasílico/Brasileiro, origem do atual Grande Oriente do Brasil (GOB).

José Bonifácio de Andrada e Silva foi escolhido como primeiro Grão-Mestre. Joaquim Gonçalves Ledo figurou entre as lideranças centrais da nova organização. Pouco depois, Dom Pedro foi iniciado na Loja Comércio e Artes em agosto de 1822 e assumiu o Grão-Mestrado em outubro daquele ano.

Maçons e Lojas participaram do ambiente político que conduziu à Independência, mas a Independência foi um processo nacional amplo, com múltiplos atores, interesses e conflitos. A Maçonaria foi um dos espaços de articulação daquele momento — não a única causa do 7 de Setembro.

Pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo
“Independência ou Morte!”, Pedro Américo, 1888 — representação artística posterior ao fato. Museu Paulista / domínio público.

Três nomes centrais de 1822

Retrato histórico de José Bonifácio de Andrada e Silva

José Bonifácio de Andrada e Silva

Patriarca da Independência e primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente fundado em 1822. Sua trajetória política ultrapassa a Maçonaria, mas sua posição no início do GOB é documentalmente central.

Retrato: Benedito Calixto / Museu Paulista — domínio público.
Retrato histórico de Joaquim Gonçalves Ledo

Joaquim Gonçalves Ledo

Jornalista, político e maçom ligado à Loja Comércio e Artes. Teve papel importante nos debates emancipacionistas e na estruturação do Grande Oriente em 1822.

Retrato: Oscar Pereira da Silva / Museu Paulista — domínio público.
Retrato de Dom Pedro em 1822

Dom Pedro I

Iniciado em 1822 e posteriormente Grão-Mestre do Grande Oriente. Sua relação com a Ordem ocorreu no mesmo período decisivo em que conduziu a separação política de Portugal.

Retrato de 1822: Simplício Rodrigues de Sá — domínio público.

Do Império à reorganização maçônica

Antiga sede do Grande Oriente do Brasil no Palácio Maçônico do Lavradio
Palácio Maçônico do Lavradio, antiga sede do GOB no Rio de Janeiro. Foto: Diego da Silva, CC BY-SA.

As atividades do Grande Oriente foram interrompidas ainda no turbulento ano de 1822 e a instituição seria reorganizada em 1831. Ao longo do Império, a Maçonaria brasileira se expandiu, sofreu cisões, reorganizações e disputas de jurisdição — algo comum numa instituição formada por Obediências soberanas e diferentes correntes.

Em 1843, o GOB instalou-se no Palácio Maçônico do Lavradio, no Rio de Janeiro, endereço que se tornou um dos símbolos materiais mais conhecidos da história maçônica brasileira.

Daí em diante, maçons aparecem em movimentos intelectuais, políticos, educacionais e abolicionistas. O ponto mais seguro historicamente é falar de participação de pessoas e Lojas, não de uma direção única da Maçonaria sobre a política brasileira.

Abolição da escravidão — liberdade como causa pública

Reprodução da Lei Áurea de 1888
Lei Áurea, 1888 — Arquivo Nacional / domínio público.
Retrato histórico de Luís Gama
Luís Gama — Arquivo Nacional / domínio público.

A abolição foi resultado de uma luta muito maior do que qualquer instituição: resistência de pessoas escravizadas, quilombos, movimentos negros, imprensa, associações abolicionistas, ação jurídica, mobilização popular e disputa política ao longo de décadas.

Nesse conjunto, maçons e Lojas também participaram. A memória institucional do GOB destaca nomes como Luís Gama, José do Patrocínio, Rui Barbosa, Visconde do Rio Branco, Joaquim Nabuco e outros no ambiente abolicionista. Entre eles, Luís Gama é lembrado pelo próprio GOB como maçom e Venerável da Loja América, além de uma das figuras mais relevantes do abolicionismo brasileiro.

A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, encerrou juridicamente a escravidão no país, mas não eliminou suas consequências sociais. Por isso, a leitura histórica mais responsável é reconhecer a presença maçônica no movimento sem apagar os protagonistas negros e a dimensão coletiva da luta.

1889 — República e maçons no novo regime

A Proclamação da República também reuniu personagens ligados à Maçonaria. O caso mais evidente é o do Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República e 13º Grão-Mestre do GOB.

O próprio GOB registra ainda Benjamin Constant, Campos Sales, Floriano Peixoto e Rui Barbosa entre os maçons que participaram do primeiro momento republicano. Mais uma vez, isso não significa que a República tenha sido “obra exclusiva” da Maçonaria; significa que muitos de seus membros ocupavam posições importantes na vida pública e participaram das articulações de seu tempo.

A influência histórica da Maçonaria brasileira é melhor compreendida observando seus membros e suas redes de sociabilidade — não imaginando uma direção secreta única sobre os acontecimentos nacionais.
Marechal Deodoro da Fonseca
Deodoro da Fonseca — Arquivo Nacional.
Benjamin Constant Botelho de Magalhães
Benjamin Constant — Arquivo Nacional.
Retrato de Rui Barbosa
Rui Barbosa — Fundação Casa de Rui Barbosa.

O GOB como instituição histórica brasileira

Sede do Grande Oriente do Brasil em Brasília
Sede do Grande Oriente do Brasil, Brasília — fotografia real do conjunto arquitetônico.

Fundado em 1822 e reorganizado em 1831, o Grande Oriente do Brasil (GOB) é apresentado por sua documentação oficial como a mais antiga potência maçônica brasileira em atividade contínua. Sua história atravessa Império, República e a expansão nacional da Maçonaria.

Ao longo dos séculos XIX e XX, o GOB tornou-se uma das principais referências institucionais da Maçonaria brasileira, ao lado de outras Obediências que surgiram posteriormente. Sua importância nesta página é histórica: compreender o GOB ajuda a entender como a Maçonaria se institucionalizou no país.

Em 2026, o próprio GOB celebrou 204 anos de fundação, reafirmando essa continuidade histórica.

GOB e GOMB não são a mesma instituição

GOB

Grande Oriente do Brasil

Fundação: 17 de junho de 1822.
Obediência histórica surgida no contexto da Independência. É central para compreender a formação da Maçonaria organizada no Brasil no século XIX.

GOMB

Grande Oriente Maçônico do Brasil

Fundação: 18 de setembro de 2009.
É a potência à qual pertence a B∴O∴A∴R∴L∴S∴ Arquitetos da Virtude nº 02. A partir daqui, esta página passa a dar destaque à história da nossa própria Obediência.

18 de setembro de 2009 — nasce o Grande Oriente Maçônico do Brasil

Segundo o site oficial do GOMB, a Obediência foi fundada oficialmente em 18 de setembro de 2009, no Oriente de São Paulo, a partir de um grupo de 22 obreiros. Uma sessão solene registrada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2019, acrescenta detalhes importantes a essa narrativa.

O registro da Alesp relata que a experiência que desembocaria no GOMB passou pela Loja Paz, Harmonia e Concórdia nº 01, que trabalhava no Ritual de Emulação. Com a ampliação do projeto, foram abertas a Arquitetos da Virtude nº 02, a União Maçônica Paulista nº 03 e a Cavaleiros de York nº 04. A reunião dessas oficinas deu forma à nova organização maçônica em 2009.

Loja nº 01Paz, Harmonia e Concórdia
Loja nº 02Arquitetos da Virtude
Loja nº 03União Maçônica Paulista
Loja nº 04Cavaleiros de York

Uma fundação coletiva

Os registros públicos consultados descrevem a criação do GOMB como resultado do trabalho coletivo dos 22 irmãos e das primeiras Lojas. Por isso, esta página não atribui a fundação a uma única pessoa.

Registro real da celebração de 10 anos do GOMB na Assembleia Legislativa de São Paulo, com Ricardo Saliba Urbano
Sessão solene da Alesp em homenagem aos 10 anos do GOMB, 2019. Foto: Sergio Galdino / Alesp.

Da consolidação institucional ao GOMB de hoje

Ricardo Saliba Urbano em sessão solene da Alesp

Ricardo Saliba Urbano

Em registros públicos de 2019, Ricardo Saliba Urbano aparece como Soberano Grão-Mestre do GOMB, representando a Obediência na celebração de seus dez anos na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Ele também figura como Grão-Mestre representante do GOMB em convênio com o Grande Oriente da França e, portanto, é uma das lideranças documentadas do período de consolidação institucional da potência.

Fonte visual: Alesp, 2019. Fonte documental adicional: convênio GOMB–Grande Oriente da França.
Imagem oficial atual do Grão-Mestrado do GOMB

Reinaldo Alvares — atual Grão-Mestre Geral

Na composição divulgada pelo site oficial do GOMB em 2026, Reinaldo Alvares ocupa o cargo de Grão-Mestre Geral, tendo Vladimir Halajko como Grão-Mestre Adjunto.

O site oficial apresenta o GOMB hoje com atuação nacional e relações internacionais, destacando o tratado de amizade e mútuo reconhecimento com o Grande Oriente da França.

Fonte: site oficial do GOMB, consultado em agosto de 2026.

Personagens brasileiros ligados à história maçônica

Os nomes abaixo aparecem de maneira recorrente na documentação histórica e/ou na memória institucional do GOB. Em temas politicamente complexos, a participação maçônica deve ser entendida como uma dimensão da trajetória de cada personagem, não como explicação total de sua atuação pública.

José Bonifácio

José Bonifácio

Primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente organizado em 1822 e figura central da Independência.

Joaquim Gonçalves Ledo

Gonçalves Ledo

Maçom, jornalista e articulador político ligado à Comércio e Artes e ao movimento emancipacionista.

Dom Pedro I

Dom Pedro I

Iniciado em 1822 e Grão-Mestre no mesmo ano, em meio ao processo de Independência.

Luís Gama

Luís Gama

Abolicionista, advogado e jornalista; lembrado pelo GOB como maçom e Venerável da Loja América.

José do Patrocínio

José do Patrocínio

Jornalista e abolicionista de enorme projeção; citado pela memória institucional do GOB entre os maçons ligados à causa abolicionista.

Deodoro da Fonseca

Deodoro da Fonseca

Primeiro presidente da República e 13º Grão-Mestre do GOB.

Benjamin Constant

Benjamin Constant

Militar, professor e republicano; identificado pelo GOB entre os maçons do primeiro governo republicano.

Rui Barbosa

Rui Barbosa

Jurista e político; aparece na documentação institucional do GOB entre nomes maçônicos ligados ao abolicionismo e à República.

Fontes e critérios desta página

Fontes institucionais e históricas consultadas:

Grande Oriente do Brasil — História do GOB · GOB — Fundação e primeiros dirigentes · GOB — Proclamação da República · GOB — Abolição.

GOMB — História oficial · GOMB — Site oficial e atual Grão-Mestrado · Assembleia Legislativa de São Paulo — sessão solene dos 10 anos do GOMB · Convênio GOMB–Grande Oriente da França.

Imagens históricas: Wikimedia Commons, Museu Paulista/USP, Arquivo Nacional, Fundação Casa de Rui Barbosa e Alesp, conforme crédito sob cada imagem. Nenhuma imagem histórica desta página foi gerada por IA.

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